As relações e diferenças entre o livro de Clarice Lispector e o filme de Suzana Amaral, ambos intitulados "A Hora da Estrela"

 Tanto o livro “A Hora da Estrela”, publicado em 1977 pela Clarice Lispector, quanto o filme, de Suzana Amaral, lançado em 25 de abril de 1985, tratam do autodescobrimento. Um autodescobrimento do qual o próprio Rodrigo admite não saber se iria obter resposta; “Quem sabe se mais tarde saberei.” (pág. 21).

Com um ar de “só sei que nada sei”, ou melhor, nas palavras do narrador, “Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou”, o livro desenvolve-se de maneira confusa, descobrindo, através de discussões pessoais de Rodrigo, sobre questões sociais, filosóficas, e estéticas, a história de Macabéa, uma nordestina que se muda para o Rio de Janeiro, no filme para São Paulo, a fim de tentar ganhar a vida. Esta que, na mais explicita ingenuidade, também não sabe o que é. Portanto, ambos, o narrador onisciente e a personagem “analfabeta”, vagueiam durante o livro buscando sentido nas coisas que o fazem, ele mais consciente desta reflexão, no entanto.

Divagando pela narração, Rodrigo, de início, precisa se ancorar muitas vezes em um ponto do texto, senão, e acontece, se perde na história de forma cômica. Isso porque sua reflexão sobre si e a formação e o futuro do universo se imbricam ocasionalmente com a intrusão dele nos pensamentos e devaneios de Macabéa, assim como, também, a formação e o futuro que poderia ela aguardar. Focando nas reflexões e acontecimentos corriqueiros do dia a dia, o narrador acaba abrindo mão do artifício de descrever detalhadamente o cenário ou a aparência dos personagens, o que torna o texto mais próximo a um tipo de contação de histórias em que o contador lembra de muito, porém, ainda humano, se dá ao luxo de esquecer alguns detalhes e acontecimentos. Contação ainda que não conecta de modo algum, a não ser pela dúvida da própria existência, um ao outro. As duas figuras, o reflexivo e intelectual Rodrigo, que parece passar por um tipo de crise existencial, e o simples “parafuso dispensável”, não se cruzam em nenhum momento da história, a não ser justamente pela dúvida; “quem sou eu?”

No filme extinguisse a imagem do narrador, no entanto permanece uma sutil dúvida existencial, agora numa reflexão limitada, que fica a cargo do leitor. Limitação que é dada somente pela construção da narrativa cinematográfica, que, seguindo uma tendência, mastiga as informações e nos entrega de maneira compactada, reduzida. Essa redução compromete parte da discussão, pois a maior parte da reflexão vinha do próprio Rodrigo, mas, por outro lado, torna a história mais fluída, e acompanhada de uma maior riqueza de detalhes audiovisuais, o que faz com que criemos, baseando-se nas características físicas, comportamentos e expressões, uma imagem mais elaborada sobre a personalidade de Macabéa, Olímpico e etc. Nestes recursos dá-se ainda, como se espera, maior relevância à presença musical, que, mesmo que somente os ponteiros da rádio relógio, ou o rufar dos tambores, muitas vezes fazendo referência ao livro, marcam presença do início ao fim, dando cor àquele artificio que aparecia já forte no texto, a musicalidade. Assim como a narrativa cinematográfica reduz, também pode vir a mudar a ordem dos fatores, porém, mantendo o produto; a moral da história. O que acontece no filme, já que começa com o rádio relógio e Macabéa na função de datilógrafa, enquanto no livro Rodrigo faz todo um ritual de iniciação, descreve a situação decadente dela, nos dá detalhes sobre sua personalidade, como “nunca se viu nua porque tinha vergonha.” (pag. 30), até chegar no início da história da personagem.

 Portanto, a moral, a crítica por trás da narrativa das duas obras, nos coloca neste contexto de crítica social ao expor a precariedade e simplicidade da personagem, e a sua ineficiência em sociedade, por nem mesmo conseguir se comunicar com outras pessoas da forma mais básica. Além da crítica social, aborda a estética, ao procurar não se distanciar da imagem física, do real, entorno das relações da nordestina, e, no entanto, peca ao distanciar-se do forte traço de autodescobrimento filosófico durante o filme, traço que nos guia durante a leitura e que, por atuar como abordagem secundária no longa-metragem, acaba dando maior enfoque aos problemas sociais de Macabéa. Sendo assim, se pontuarmos a maior das diferenças, voltaremos àquelas três abordagens; social, filosófica e estética. Não há no filme a mesma preocupação com a fragilidade biológica dos seres e do universo, que vinha recheada de “quem sabe?” ou “por quê?”, provavelmente pela ausência de Rodrigo S. M., mas ainda há, por entrecortes de cenas, a espiritualidade e a exposição da insonsa intensidade que Macabéa tem de viver.

Obras pertinentes que, apesar das diferentes abordagens da narrativa, infelizmente, são atemporais, pois nos trazem reflexões sobre problemas sociais que nos rodeiam há muito tempo e parecem estar longe de serem resolvidos. Sobre a questão filosófica, penso que realmente viveremos discutindo, perguntando, digerindo ideias, mas sem respostas, como propõe Rodrigo. Já a questão estética, ambos os fazem de maneira semelhante, e chocam tanto o que lê quanto o que assiste, expondo a realidade que nos rodeia no seu aspecto mais cruel, ao mesmo tempo banal.




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